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“A relação do artista com seus materiais é sempre uma conversa”

nov. 03, 2017

As ideias brincam com Fernando Vilela, 44 anos, surgindo de modos muito inesperados –seja numa viagem, seja vendo um documentário, seja simplesmente aparecendo. “Às vezes, a ideia vem do ar”, conta ele. Ideias mais ou menos brincantes, como no livro recém-lançado “Dino e Saura”, que surgiu de uma dessas brincalhonas e bem humoradas.

Artista multimídia e premiado –três Jabutis para “Lampião e Lancelote” e Menção no prestigiado Premio Bologna Ragazzi Award, da Feira Internacional de Bologna, Itália-, Vilela também tem obras nos acervos do MoMA, em Nova Iorque, no MAC e na Pinacoteca, em São Paulo.

Convidado estreante deste Brinque-Book Brinca em que, a cada quinzena um autor, ilustrador, escritor vem brincar respondendo sempre as mesmas perguntas, Vilela falou sobre seu trabalho, preferências e formação leitora. Vem brincar?

Quem é você?

Meu nome é Fernando Vilela, sou artista, ilustrador, autor, designer e também curador de exposições.

Quem faz livros é o quê?

Pra mim, quem faz livros ilustrados é o arquiteto. O arquiteto é aquele que constrói um livro. É o autor, que também é ilustrador, que também é designer, que trabalha junto com o editor. Então, o livro é uma parceria de uma equipe. Pode ser feito por uma pessoa só, como no caso dos meus livros, e também pode ser feito por um autor, um ilustrador, um designer, impresso por uma gráfica… Essa obra coletiva é o livro ilustrado.

Como é o lugar em que você trabalha?

Geralmente, trabalho no meu estúdio, no meu ateliê, em dois lugares: numa mesa cheia de materiais de arte e também no computador, onde uso programas que são ferramentas para criar as ilustrações e para diagramar e criar o projeto dos livros.

(“Toalha vermelha” / Ilustração: Fernando Vilela)

Como é que você tem uma ideia para escrever ou desenhar? E como tira ela da cabeça e coloca no papel?

As ideias aparecem de diversos lugares. Às vezes estou numa viagem com a minha família e, de dentro do barco, vejo uma toalha cair no mar; aí me vem a ideia do livro “Toalha vermelha”. Às vezes, lendo uma matéria no jornal e assitindo a programas sobre o tsunami que aconteceu na India, me vem a ideia de fazer um livro sobre tsunami e aí começa a escrever, a desenhar. E, às vezes, a ideia vem do ar. Aparece na minha cabeça a ideia, por exemplo, de uma cabra que faz uma mágica e viaja pelo mundo e aí nasce o “Abrapracabra”. Dependendo do livro, a ideia vem de um lugar ou de outro. Mas tenho muitas ideias; a maioria delas não viram nada, ficam na minha cabeça, escrevo, desenho. E algumas viram uma pintura, uma gravura, uma escultura ou um livro.

Qual foi a ideia mais brincante que você teve e que virou livro?

É difícil responder, porque tem muitas ideias divertidas que viraram livro. Acho que uma delas é o “Abrapracabra”, que é um personagem que nasceu muito bem humorado; o “Dino e Saura”, que é o livro que estou lançando, também nasce de uma ideia divertida, em que os ovos dos dinossauros são trocados e dá a maior confusão. E também o livro “Comilança” eu acho que é uma ideia bem divertida, em que um bicho vai comendo o outro e todos cospem um e outro.

Seus lápis e cadernos brincam com você?

Acho que a relação que o artista tem com seus materiais é sempre uma conversa. Às vezes quando você está desenhando, você descobre coisas que mudam a direção do seu trabalho. Esse jogo de experimentar e de ter uma resposta do material, de descobrir coisas, faz com que o processo de criação não seja simplesmente uma ideia colocada no papel, mas sim um exercício de troca, de experiências, de onde vão nascer muitas coisas que não estavam planejadas, dessa prática de laboratório investigativo.

Quando não tem ninguém olhando, do que você brinca? E quando tem alguém olhando

Geralmente trabalho sozinho e também trabalho com outras pessoas em volta. O que acontece é que quando eu estou muito envolvido com o trabalho, seja escrevendo um texto, seja pintando ou construindo uma escultura, fico totalmente imerso na atividade. Aí posso estar sozinho, pode ter gente em volta, mas me sinto totalmente livre. Então, não muda muito se estou sozinho ou com pessoas em volta. Mas tem alguns momentos de concentração, que sozinho eu enlouqueço mais e, da loucura, nascem ideias muito boas.

(“Abrapracabra”/ Texto e ilustrações: Fernando Vilela)

Em que momento, lugar, clima, hora do dia ou posição você mais gosta de ler, escrever ou desenhar?

Varia muito. Às vezes eu gosto de desenhar na padaria, na praia, dentro de um avião, no ateliê… Depende da hora do dia, estou mais ou menos animado. Mas gosto de trabalhar durante a noite, porque é silenciosa, tem uma energia de concentração, prefiro trabalhar quando as coisas estão mais calmas.

O que você mais gostava de ler quando criança? Mudou muito?

Gostava muito de ler livros ilustrados, quadrinhos. E continuo gostando. Hoje gosto de ler mais coisas, gosto de ler romance, poesia. Mas do que mais gosto mesmo é de misturar as leituras. Acho que o livro ilustrado, o livro de artista, os quadrinhos, experimentos dentro do universo do livro e das artes são as leituras que mais me fascinam.